
Somos seres preocupados em agir, fazer, resolver, providenciar. Estamos sempre tentando planejar uma coisa, concluir outra, descobrir uma terceira.
Não há nada de errado nisto – afinal de contas, é assim que construímos e modificamos o mundo. Mas faz parte da experiência da vida o ato da adoração.
Parar de vez em quando, sair de si mesmo, permanecer em silêncio diante do Universo.
Ajoelhar-se com o corpo e com a alma. Sem pedir, sem pensar, sem mesmo agradecer por nada. Apenas viver o amor calado que nos envolve. Nestes momentos, algumas lágrimas inesperadas – que não são nem de alegria, nem de tristeza – podem jorrar.
Não se surpreenda. Isto é um dom. Estas lágrimas estão lavando sua alma.
Somos seres;
Desejo a você...

Fruto do mato, cheiro de jardim, namoro no portão, domingo sem chuva, segunda sem mau humor, sábado com seu amor, filme do Carlitos, chope com amigos, crônica de Rubem Braga, viver sem inimigos, filme antigo na TV, ter uma pessoa especial e que ela goste de você.
Música de Tom com letra de Chico, frango caipira em pensão do interior, ouvir uma palavra amável, ter uma surpresa agradável, ver a banda passar.
Noite de lua cheia, rever uma velha amizade, ter fé em Deus... Não ter que ouvir a palavra não nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança, ouvir canto de passarinho, sarar de resfriado, escrever um poema de amor que nunca será rasgado.
Formar um par ideal, tomar banho de cachoeira, pegar um bronzeado legal, aprender uma nova canção... Esperar alguém na estação.
Queijo com goiabada, pôr-do-sol na roça... Uma festa, um violão, uma seresta. Recordar um amor antigo, ter um ombro sempre amigo, bater palmas de alegria.
Uma tarde amena, calçar um velho chinelo, sentar numa velha poltrona, tocar violão para alguém, ouvir a chuva no telhado, vinho branco, Bolero de Ravel ... e muito carinho meu.
Todo dia que eu acordar;
Vou me declarar
Sempre inventando alguma coisa diferente
Necessariamente que te surpreende
O nosso caso não é por acaso
E caso você queira
Compro uma casa e me caso com você
Eu já tô até vendo
Eu e você vendo
TV no nosso quarto
Se beijando no intervalo
Mas isso eu só penso,
Imagino; não falo
Um amor imenso
Mas vou ter que adiá-lo
Parece absurdo
Mas eu escuto bem
E o som que eu tocar
Vai tocar você também (...)
E nada disso teria sentido
Se eu não estivesse sentindo
O que você no fundo
Sente também
És presença;

És presença. E, mesmo quando és ausência, és muito mais do que saudade. És vontade de ver de novo, de ver mais, de ver mais de perto, ver melhor. E tocar, de modo que, cada toque, eu tenha um pouco mais de ti em mim, para que não haja mais ausência. Te encontrar virou apenas uma questão de fechar os olhos. Tenho confundido 'eu' com 'nós'. Mas essa confusão só me acontece porque eu tenho certeza de tudo que eu sinto. E o que eu sinto é o tal do amor. Aquele surrado, mal-falado, desacreditado e raro amor, que eu achava que não existia mais. Pois existe. E arrebata, atropela, derruba, o violento surto de felicidade causado pelo simples vislumbre do teu rosto.
Passamos a madrugada juntos;
Passamos a madrugada juntos. Foi leve e eu estava quieta, coisa que nunca aconteceu nenhuma das vezes que conversamos. Eu estava sempre histérica e hoje eu estava muito quieta, até demais. Talvez seja porque eu não tenho mais a euforia louca de ser amada. Eu piro quando alguém me ama e ao ver em você a calmaria dos vencedores corriqueiros, larguei o corpo. Acabou sendo boa, a sensação de madrugada ordinária, conversa ordinário. Eu pude habitar o papel de amiga, uma forma de ouvir por perto sua respiração pigarrenta que amo como se fosse o único sopro saudável do mundo. Eu permaneci e isso foi diferente, triste, insuportável, mas possível. Como os mortos que ficam em qualquer lugar, até mesmo embaixo da terra. Morto não deseja e por isso mesmo permanece. Acho que seu desejo morreu e talvez o meu também, já que boa parte desse amor enorme que eu sentia e sinto por você, vinha e venha da minha alegria desmesurada em me sentir amada pelos meus próprios sonhos. Você encerrava em mim eu mesma e era uma loucura tudo, como eu sentia, como eu queria me vomitar e ensanguentar e explodir e rodopiar em mim até furar o chão como uma broca desgovernada e depois sair derrubando o mundo como o único pião que sabe a verdade e precisa chacoalhar seu entorno pra não enlouquecer sozinho. Era uma loucura tudo. Mas a morte, o fim, nós, ao lado um do outro, isso me permitiu estar de alguma forma sem querer habitar cada instante do estar e para isso me retirando o tempo todo. E isso pode ser viver mas viver é terrível. E antes, quando eu não sabia viver e me sentia amada, era ainda mais terrível. Daí que sobra essa sensação de uma solidão filha da puta mil vezes pois em nada dá pra ser com você. E tudo bem, não é você, nunca foi, mas escuta a maluquice: é que nada disso impede que eu sinta um amor absurdo por você.
Ela.
Ela esperou ele falar com ela no colégio, mas ele sempre passava pelo outro lado. Esperou ele falar a noite no MSN... Nada. Nenhuma janelinha laranja piscando. E a ligação que ele prometeu desde o dia que eles ficaram pela primeira vez, nunca chegou, porque ele sequer tem o número dela. Ela ficava aflita, pois sabia que era só mais uma pra ele, mas nunca deixou de esperar algum sinal.
Então, a festa do colégio chegou, ela se arrumou na esperança de que ele a notasse. Então ela foi esperançosa. Ela olhou a festa toda pra ele, e ele nem sequer lembrou-se dela. Então, ela o viu com outra menina e viu que nada foi como ela esperava. Ela não queria que ninguém a notasse naquele momento, só ele. Ela ainda assim esperou que ele notasse a tristeza dela e fosse atrás, mas quando ela saiu da festa que chegou a calçada silenciosa e vazia, olhou pra trás e ele não estava lá correndo atrás dela e implorando perdão, como ela queria que fosse.
Ela queria ir embora logo, e a espera do táxi nunca foi tão agoniante, ela sentia vontade de gritar, mas não esperava que estivesse tão frustrada a ponto de não ter voz pra isso. Logo as lágrimas molharam seu rosto e mancharam sua maquiagem que já parecia arte, pelos borrões que faziam em seu rosto. Então o táxi chegou, ela chegou a sua casa, foi para seu quarto, deitou-se e esperou o sono chegar, mas a dor era tão forte que lhe espantava o sono.
Ela dormiu e acordou melhor por um segundo, e assim as semanas passavam e por mais segundos ela se sentia melhor. Ela sabia que ia ser difícil esquecer, como se lhe enfiassem e depois bruscamente lhe tirassem uma estaca do peito, mas não custava tentar. Então ela esperou que o tempo lhe curasse as feridas. E assim aconteceu. Hoje ela cai sim, mas se levanta mais forte. Ela está se acostumando com isso... Pois agora ela só espera viver, sem outras expectativas.
A hora.

01:54 am - Me pego acordada pensando em você, "Qual assunto eu vou falar quando chegar na escola? O de sempre? Tenho que fazer algo diferente!". Depois me pergunto aonde isso vai dar. "para com isso, garota! você é uma iludida", penso e tento dormir.
02:38 am - Estou eu, batendo levemente o pé e cantando baixinho as músicas que sempre achei que mais combinam conosco e novamente percebo como eu fantasio coisas, "Será que isso é normal?" Ás vezes me acho tão esquisita.
03:03 am - Assim que vejo a hora, fico logo angustiada. "será você pensando em mim?" e logo depois me acho uma idiota, "tão cega de amores que acredita nessas besteiras!". Tenho raiva de mim por isso, mas ela passa segundos depois quando volto a pensar em você. Na verdade até a parada do ônibus passa e eu olhando pra o lado de fora da janela pensando em você. E pronto, nem me lembro mais da raiva.
03:53 am - Estou eu lá, pendurada no celular olhando as mensagens que mandei pra você, nunca respondidas. Sei lá se quer se foram lidas. Prefiro pensar que sim. Sempre espero o melhor de você.
04:30 am - Tomo um susto ao do nada sentir teu cheiro, ouvir tua voz. Por um pequeno segundo acho que estou ficando louca, só pode. Depois paro, penso e me vejo com um sorrisinho de canto, "como ainda não estou acostumada?"
05:10 , 05:11 , 05:12 ... A hora é um tic-tac torturante agora. Percebo como ela não passa e sinto a vontade de existir um mundo em que tudo fosse do jeito que eu quero. Nesse mundo não teriam horas, ou pelo menos não teriam relógios que fazem tic-tac só pra te lembrar de como passa devagar.
05:47 am - Pego um papel e escrevo toda minha noite angustiante, sonhadora. Em que todos os meus pensamentos e pequenas acões acabam em você. Levanto, vou ao banheiro e lavo o rosto. Me vejo no espelho e me preparo pra mais um dia em que como sempre, passo a noite em claro e o dia vendo que tudo não passa de um sonho. Respiro e vou. Vou destruir meus sonhos. Vou viver.


